Sempre tive vontade de correr. Olhava para aquelas pessoas, bem dispostas no domingo pela manhã, enquanto eu voltava da balada e pensava: “um dia eu farei isso!”

Já se passa 1 ano de esforço absoluto, tentando vencer o próprio cansaço, tentando ser disciplinada, tentando chegar a metas tão desafiadoras. Também se passou bons meses onde a alegria e a satisfação de atingir minhas próprias metas passou para um sentimento tão excitante que me faz querer estar presente cada vez mais. Uma adrenalina sem igual.

O primeiro passo foi difícil de dar: começar. Coordenar a respiração com as passadas, controlar a freqüência cardíaca, e ainda poder verificar as calorias perdidas. Logo depois vieram os 5km, e ao longo do tempo, esses desafios vieram crescendo. Para setembro, a meta é chegar a 21km para tentar a Meia Maratona de Buenos Aires.

Tantos prazeres eu conheci, e nunca imaginei vivenciar situações onde pessoas tão rudes poderiam surgir na minha frente, quando eu acreditava que fossem donas de uma evolução e inteligência que eu jamais alcançaria.

No último domingo pude me surpreender e me chatear com tantas pessoas que não consigo nem contar quantas são. Achava que fosse ser uma corrida de pura energia positiva, mas a falta de educação e cultura do povo goiano que por ali passava em seus suntuosos carros me fez questionar de onde tinha saído tantas palavras grosseiras para um domingo tão cedo. Se começa o dia assim no final da semana, posso acreditar como essas pessoas chegam na próxima sexta-feira, depois de tantos extresses e trabalhos: à beira de um ataque de nervos.

Uma corrida que acontecia em um dos setores mais nobres da cidade, que deveriam estar ali, entre os transeuntes, pessoas de alto nível cultural. Domingo, 8h00 da manhã foi dada a largada. Um pouco mais de 9h00 todas as vias interditadas já tinham sido liberadas, mas a arrogância fez com que as pessoas xingassem e ofendesse quem dava o seu sangue para passar com satisfação e alegria a linha de chegada.

Ônibus na via dos corredores, carros, policiais desrespeitosos e mal educados, e uma moradora, com seus mais de 60 anos, dona de uma falta de educação inigualável que teve a capacidade de olhar no meu olho e me mandar correr na esteira enquanto eu cumpria a prova de 8km. Por muitos minutos eu me perguntava: onde estou, em uma corrida ou em um campo de batalha?

Essas mesmas pessoas, com toda certeza, se orgulham em dizer que os países europeus são muito mais evoluídos que nós: o terceiro mundo. Que em Paris ou Barcelona, se pode locar bicicletas. Que em Berlim, as pessoas caminham e pedalam pela cidade, até bar itinerante onde você precisa pedalar o tempo todo enquanto degusta deliciosas cervejas existe. Que em Munich fazem muitos anos que foram adotadas as ecobags e a energia fotovoltáica. Que as maratonas pelo mundo todo trazem uma energia positiva sem igual. Que o Japão cuida do seu próprio lixo que dá inveja só de vê-los desde pequenos tão organizados. Que o Brasil vai sediar a Copa do Mundo (o que muito preocupa). Pessoas que são capazes de viajar o globo terrestre observando a educação de outras culturas, mas não conseguem aplicar em sua própria cidade. Esse é o tipo de caipira que me incomoda.

A soberba goiana vem me deixando muito impressionada e triste. Será quando isso será mudado?? Penso que um dia, quem sabe, isso mudará, e eu faço a minha parte para que seja breve.

Goiânia é uma cidade plana, campeã brasileira em quantidade de motos, e vem aumentando constantemente a quantidade de carros. Esse tipo de veículo por aqui não é luxo, e sim uma necessidade, pois temos um transporte coletivo de péssima qualidade, e que não consegue abastecer a cidade em toda a sua extensão, quem dirá nos seus arredores.

Uma cidade arborizada, de um clima tão quente, que você se sente como se estivesse sendo achatado no asfalto. Pessoas bonitas, alta qualidade de vida quando comparada a grandes metrópoles. Dona de poder aquisito que vem aumentando a cada ano que se passa. Possui vias não tão largas e extensas que faz com que o trânsito não flua. Poucos parques pela cidade, com extensões muito pequenas, o que faz com que estejam sempre muito cheios. Não temos ciclovias, pistas de cooper de qualidade e nem espaços públicos onde as pessoas possam se exercitar. As academias estão sempre cheias, os bares mais ainda, o que faz com que a população ganhe, cada dia mais e mais excesso de massa gorda. O consumo de cervejas nos muitos botecos da cidade competem com o número de espetinhos, panelinhas, bolinhos e linguiças que os apreciadores ingerem. Sim, boteco é o nosso forte!!

Com tudo isso sobram-se quase nenhum espaço público para a prática de exercícios físicos. Para aqueles que se interessam, mas uma via foi elegida para essa prática, a Avenida Ricardo Paranhos. Uma avenida que em toda a sua extensão tem 2,5km. Sem trânsito, serve como uma passagem de lugares de grande circulação na cidade. Uma pista plana para quem quer praticar seus treinos. Uma passagem rápida para quem quer cortar caminhos. Um lugar onde os corredores se espremem no cantinho, com buracos e cocôs de cachorro enquanto os carros acham que alguém quer competir com eles. Quanta ignorância, não? Motoristas que acreditam que se reduzir a velocidade e gastar 10 segundos a mais, ou esperar que alguém passe correndo nos retornos, fará o seu dia pior.

Bem, até agora falei de motoristas e corredores, mas e a prefeitura, o que faz para mudar essa realidade? Muitas promessas sem nenhuma resposta concreta, o que torna as pessoas desencantadas com o espaço urbano.

Conheço muitas cidades que elegem um dia para a prática de exercícios da população, como em Brasília que o Eixão é fechado todos os domingos; o Rio de Janeiro entre outras que bloqueiam grandes vias de acesso. Florianópolis é um verdadeiro exemplo, exala saúde, e Goiânia? Goiânia exala a arrogância daqueles que não conseguem se exercitar e faz com que o seu peso aumente a cada dia e que daqui as alguns anos não consiga nem enxergar o seu próprio órgão sexual (seu p.), quanto menos amarrar um sapato.

Como tenho sempre que responder as perguntas, quase sempre recheadas de muita arrogância, vou logo responder: eu corro sim na Ricardo Paranhos. Se eu gosto? Gosto sim, e gostaria mais se a via estivesse preparada para nos receber. Porque não corro no Areião? Vaca Brava? Parque Flamboyant? Os parques além de pequenos, estão cheios de pessoas que passeiam com suas famílias e cachorros o que impossibilita o treino. O que não gosto? Não gosto dos mal educados que gritam ou jogam os carros em cima dos corredores, não gosto das perguntas regadas a muita ironia, e não entendo porque todos não se unem para exigir da prefeitura espaços apropriados. Fácil olhar para o seu umbigo e criticar a atitude do outro né?! Já que olha tanto para o seu umbigo, aproveita e olha para o tamanho da sua barriga, tira a bunda da cadeira e venha se exercitar também, com certeza ficará mais disposto, menos mal humorado, seu intestino funcionará melhor e o sexo, será sem a menor dúvida, muito mais cheio de vigor.

Não é que eu não goste dos bares e de um bom chopp, muito pelo contrário, aprecio sempre, mas a minha boa educação, as viagens, e o meu estilo de vida me faz compreender cada qual em seu lugar. Me faz compreender o porque que em grandes corridas em São Paulo a população vibra, torce e ajuda jogando água nos corredores quando o calor é extremo.

Se nos uníssemos pedindo uma cidade melhor, com espaços mais apropriados, com certeza conseguiríamos maiores e melhores resultados, no lugar de ficar apenas reclamando da vida, do trânsito, dos ciclistas, dos corredores, dos pedestres, das pessoas que por aqui circulam.

Ciclovias, pistas de cooper, calçadas uniformes e arrumadas, mais árvores pela cidade, transporte coletivo de qualidade, parques, menos violências, principalmente no trânsito, o autódromo funcionando, o Centro Cultural Oscar Niemeyer funcionando, ginásios, bibliotecas, museus, são exemplos do que deveríamos exigir dos administradores dessa cidade, e não dos que aqui habitam, pagam impostos em dia e lutam por uma qualidade de vida maior.

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